sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Vida madrasta

Esta senhora, pelo que tenho visto na televisão, é que devia ser a tia do Zézito.

Mas, como diz o meu mordomo, família a gente não escolhe.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Os problemas de liquidez


Li no Diário de Notícias, que é um jornal que explica sempre as coisas muito direitinhas, que "o Banco Português de Negócios (BPN) recorreu ontem à Caixa Geral de Depósitos (CGD) para resolver uma situação emergente de falta de liquidez. Segundo o DN apurou junto de fontes ligadas ao banco presidido por Miguel Cadilhe, o BPN contraiu um empréstimo de 200 milhões de euros junto do banco público, para poder responder aos compromissos mais imediatos da sua gestão".

A notícia impressionou-me muito. Não pelo montante do empréstimo, que eu não ligo a futilidades, mas porque sou muito sensível a problemas de falta de liquidez. Eu preciso muito de liquidez para controlar o meu bairro. É uma trabalheira. Preciso de liquidez para o corrimão da minha rua, para a porta da lavandaria que fica na esquina da minha rua, preciso de liquidez para a primeira árvore a seguir à passadeira dos bombeiros e para a segunda árvore à saída da passadeira dos bombeiros, preciso de mais liquidez para as escadinhas número três, quatro, sete e última que dão acesso ao snack da esquina, para o cantinho da rua por cima da escadaria, para as árvores todas até aos táxis, de mais liquidez ainda para marcar o território do bar onde costuma estar o palerma do Gingão, que é aquele labrador adolescente que tem a mania de querer falar comigo, e de liquidez de sobra para a segunda passadeira e para a calçada da Igreja, da porta da frente às traseiras passando pela alçada que é mais comprida do que eu cinquenta vezes.

Gasto tanta liquidez pelo caminho que quando chego à esplanada entro em gestão de activos líquidos. Levanto as minhas belas patas posteriores à vez, com o mesmo estilo mas maior avareza, para poder continuar a levantá-las as vezes todas recomendáveis a uma boa gestão do meu bairro. O pior é quando chega a hora do jardim. Ou o João e o Gi, que são os senhores da esplanada, me servem umas tacinhas de água de reforço, ou só com muita concentração cumpro as minhas obrigações para com aquela magnífica relvinha e os canteirinhos. Já dei comigo a pedir desculpa a um craveirinho: não te ofendas que amanhã, quando eu voltar, há-de chegar a tua vez.

O problema da falta de liquidez atormenta-me todos os dias desde muito novo. Eu sabia que um dia ia aparecer uma solução, mas não julguei que fosse preciso ter esperado tanto, até que as coisas ficassem todas de patas para o ar. Bem dizia o senhor ministro que fechava as urgências todas para se divertir que as crises são boas oportunidades. Até hoje preparei-me sempre para a falta de liquidez em casa, bebendo rapidamente cada bebedouro de água fresquinha que o meu mordomo me servia. Agora já sei que não é preciso sofrer tanto a inundar a minha sensível bexiga para depois ficar ansioso por sair de casa. Agora vou beber com a parcimónia adequada à minha raça e esperar que o meu mordomo se decida a largar o computador. Podemos até sair às três ou quatro da manhã. Basta-me uma pequena mudança de percurso. Quando atravessar para o outro lado da segunda passadeira, a seguir ao Gingão, viro à direita em vez de virar à esquerda. Nesse passeio há logo uma Caixa Geral de Depósitos. Entro o tempo necessário para apresentar as minhas garantias e só depois volto decidido para a esplanada, o jardim e o craveirinho.

domingo, 5 de outubro de 2008

O INFO-EXCLUÍDO

Bem sei que já não há dinheiro para aquelas obrinhas imprescindíveis do aeroporto e do TGV. Percebo que não vai dar jeito nenhum ficarmos sem aviões e comboios numa altura em que o gasóleo está tão caro e ninguém pode andar de carro a não ser aqui no meu bairro (mas isso é porque o meu bairro é de gente muito fina). E até sei, suprema desgraça, que o Sporting de Portugal perdeu com o clube espanhol do bairro de Carnide.

Mas talvez não fosse caso para este senhor decretar "o fim da prosperidade" e dizer que "acabou o Mundo tal como o conhecíamos". Fiquei tão intrigado com o apocalipse deste senhor tão simpático que roubei a agenda de contactos ao meu mordomo e investiguei pessoalmente o assunto. Ao cabo de dois telefonemas em off, três pressões e quatro ameaças de processo fiquei a saber tudo. Este senhor está triste porque não lhe deram um Magalhães para ele brincar, com a desculpa de que já não tem idade para se matricular numa escolinha primária.

Para ele foi um choque tremendo ter de continuar a trabalhar num gabinete de ministro sem o sofisticado controlo parental português que dá acesso gratuito a belas raparigas nuas do Mundo inteiro. Sentiu-se velho pela primeira vez na vida. Já estava muito triste quando ligou a televisão e viu os amigos todos a fazer serviço público. Foi então que, no seu íntimo, se apercebeu info-excluído da propaganda do Governo. O senhor chorou muito de desgosto durante dois dias e duas noites. Depois acordou e resolveu resistir à crise como o senhor que implicam com ele por ser engenheiro mandou que se resistisse. Vai daí vestiu uma túnica branca e saíu para a rua a preparar as eleições e a reforma.

domingo, 28 de setembro de 2008

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

QUE RICO CANTOR


O senhor com quem tanto implicam por ser engenheiro afinal gostava mesmo era de ser cantor. Acabo de o ver em Viana, uma terrinha deliciosa que eu conheço muito bem, a tentar cantarolar uns versinhos do Bob Dylan.

Foi na inauguração de uma fábrica daquelas ventoinhas gigantes que fazem concorrência à EDP. A fábrica, pareceu-me ouvir na televisão, é de uns senhores alemães. E este senhor gosta quase tanto de alemães como de venezuelanos da Venezuela ou de venezuelanos de Angola. Aquela patada do Ballack no nosso defesa antes de marcar o golo que nos eliminou no campeonato já está felizmente esquecida.

Sendo os senhores mais importantes da cerimónia uns senhores alemães, este senhor resolveu rematar o discurso dele em inglês técnico, esforçando-se muito para não retribuir a patada. Nada que me pudesse espantar. Mas, no finalzinho, fiquei totalmente deleitado quando ele saltou do inglês técnico para o americano de intervenção, um exercício arriscado para ele, se considerarmos que o Obama está quase mas ainda não roubou ao que lá está a casinha branca.

"The answer, my friend, is blowin in the wind, the answer is blowin in the wind", tentou ele cantar. Mas teve azar e o versinho saíu-lhe com aquela vozinha declarativa de sempre que fica tão gira no Gato Fedorento. Como eu gosto muito desta canção não resisto a deixar-lhe aqui outro versinho da mesma:

"How many ears must one man have
Before he can hear people cry?"

Não vá ele ter cantado de ouvido, sem saber a letra toda.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

A COOPERAÇÃO INSTITUCIONAL

Eu tenho muitas dificuldades com a cooperação institucional. O meu mordomo, este Verão, levou-me para o Algarve com uns amigos dele e outro canito chamado Ruckie. Quando o vi entrar na mala do carro rosnei-lhe e passei a viagem a tentar arrumá-lo no lugar dele, que obviamente era do lado de fora. Quando ficámos os dois a sós pela primeira vez em casa, sem testemunhas, como convém, começou a violência doméstica. Eu tratei de tomar conta do sofá quando ele queria ir para o sofá e ele de ocupar o terraço quando eu queria ir para o terraço. Com o passar dos dias, cansados daquilo, optámos pela mútua ignorância. Foi a forma mais avançada de cooperação institucional que lográmos alcançar. Acho que não chegou para preencher os requisitos desse supremo entendimento entre dois seres vivos, para mim impensável, a que os biólogos chamam simbiose, mas foi o que se pôde arranjar.

É por isso que eu me comovia tanto com estes dois senhores. Eles eram sempre tão bonitos quando apareciam juntos. Sorrizinhos, abraços, palavras mimentas. Pareciam um casalinho enamorado, ainda por cima para nosso bem. Era até fascinante vê-los na televisão. Toda a gente lá aparecia a dizer mal desta vida, mas eles os dois não. Falavam de desafios, desígnios e oportunidades. Vendiam saúde, coragem e confiança a uma só voz. Aquilo era mesmo inspirador. Quando mostravam as imagens das reuniões deles comecei a baixar o som às reportagens para pôr a tocar aquela música tão bonita do Kenny Rogers e da Sheena Easton. O meu mordomo, quando chegava a casa, ficava muito aflito ao dar com umas lágrimas secas no meu lindo focinho, mas nunca soube a verdadeira razão. Eu também nunca lhe disse, por medo de abalar seriamente a profunda admiração que ele tem pelas minhas qualidades intelectuais e pelo meu faro político e porque posso ser um sentimentalão mas nunca deixo de ser um cão esperto. E quando o meu mordomo pensa que estou triste chovem os biscoitos e leva-me mais depressa à rua.

O drama é que deixei de saber que música hei-de eu pôr a tocar quando vejo estes senhores. Para começar, agora aparecem sempre separados. Mas se fosse só isso eu não estava tão preocupado com o nosso futuro. O pior é que o da direita começou a fazer comunicações ao país para falar mal do outro. Eu, que sei bem o que isso é, percebi bem o rosnar solene desses momentos. Depois, o senhor da esquerda começou a mandar os amigos dele responder ao outro. Ainda tive esperança que os dois trocassem uns bilhetinhos secretos e ultrapassassem as divergências para nosso bem. Mas não. Começaram os dois a devolver leis um ao outro.

Não prevejo nada de bom. Não sei porquê estes dois senhores fazem lembrar a minha história com o Gingão, um jovem labrador que me costuma aparecer a caminho da esplanada. De início ele rosnava e eu dava-lhe desprezo. Depois comecei a rosnar-lhe também. Até que um dia ele levantou-me as patas e eu dei-lhe uma trinca.



SILÊNCIO


Anda tudo aí a pedir para a avózinha quebrar o silêncio. Por mim, não preciso de histórias de encantar todas as noites para dormir tranquilo. Bom mesmo era que eles quase todos se calassem, para se poder ver televisão em paz. Podiam ser estes dois a começar, que são mais chatos do que aquele gato vadio da Rua da Verónica.



quinta-feira, 3 de julho de 2008

COMPRINHAS


Achei muito interessante a profecia do senhor sargentão dos aviões segundo a qual o shopping é que vai pagar o novo aeroporto.

Estou disposto a contribuir com a minha felina parte de fúria consumista para viabilizar um projecto tão importante. Basta que ponham lá umas lojinhas de biscoitinhos de carne e de ossinhos de pele de búfalo a preços low-cost.

Na verdade, ainda não sei onde irei desenterrar o dinheiro para pagar a minha prometida gula. Mas eles também não devem saber onde vão arranjar 3 mil milhões de moedas para construir duas pistas, as salinhas de embarque, as lojinhas e uma recepção VIP para mim.

Desconfio que vão desatar a plantar prédios muito grandes na Portela e a vendê-los até ao último andar. Mas terão mesmo de ser plantados, porque o senhor Costa que se mudou do Governo para a Praça do Município já disse que quer ver ali um jardim.

Deixem-me sonhar, que eu já estou a ver os manjericos nos terracinhos com vista para o rio e para a nova ponte. Sim, porque vai ser preciso uma ponte muito larga para as pessoas todas do Colombo poderem ir às compras ao aeroporto sem caírem ao rio
.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

A FÚRIA E O FURACÃO

Sou um cão sem complexos. E aquela cadelinha pastora alemã espanhola que conheci há uns meses era uma simpatia. Por isso, ontem fiquei alegrete.

Gostei sobretudo de ver aquela equipa de frigoríficos alemães agarradinha à relva, sem cheirar a bola. Viu-se agora que são uns electrodomésticos de classe D, que gastaram a energia toda a dar patadas no menino joãozinho de oiro e no nosso inadap(a)tado defesa esquerdo. Claro que devíamos ter sido nós a desligá-los da corrente. Mas os espanhóis têm um touro e eu, que não tenho cornos mas sou bem provido de dentes, não fui sequer convocado.

Pode ser que o furacão que levou o sargentinho ponha cá outro, mais esperto para a bola do que para outras coisas.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

QUERO JUSTIÇA!


Hoje estou furioso. Já contactei o primo do mordomo, que é advogado, para darmos entrada com um processo. Não pode é ser no tribunal da Casa Pia porque eu não tenho bolas de futebol para apresentar como prova, nem estou disposto a esperar quatro anos para que me resolvam o problema. O melhor é irmos direitos ao Tribunal de Justiça europeu, cuja jurisprudência me oferece mais garantias.

E o meu problema é que hoje o meu direito fundamental preferido foi ostensivamente violado. Isso mesmo. Foi-me negado o pleno usufruto do direito de qualquer cão a namorar uma cadelinha. Ia eu com o meu mordomo muito contentinho depois de comprarmos o jornal quando ela apareceu como um cometa no passeio. Os meus pêlos loirinhos estremeceram todos só de verem os pêlos branquinhos dela. Uma cadelinha da minha raça, de quatro anos e toda branquinha, como eu gosto, porque é sinal que não anda demasiado ao Sol e mantém uma conduta recatada digna dos mais ilustres dos nossos antepassados.

Que devia eu fazer a uma cadelinha que me entra no bairro à saída da adolescência? Namorá-la, claro. Primeiro com toda a cortesia, depois com toda a força. Foi o que fiz. Apresentei-me, causei-lhe de imediato boa impressão, dei-lhe uns beijinhos e fui interrompido no melhor do nosso encontro pelo pelintra do mordomo dela. Que sim, que ela estava com o cio, disse o bruto, como se fossem termos para falar de uma senhora. Mas que não, que não podia ser, porque não lhe dava jeito a ele, o inútil, talvez daqui a seis meses, quem sabe.

O meu mordomo e eu saímos dali com o orgulho ferido. Não reagi logo à dentada para não embaraçar a minha conquista. Mas não me conformo. Já sei onde ela mora. Como o advogado me disse que não há por aí um único tribunal capaz de resolver a coisa mais cedo vou fazer Justiça pelas minhas próprias patas e ficar à espera de uns belos cachorrinos como prova.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

CEGUETAS


O mordomo bem avisou que as listas de espera de Oftalmologia são uma vergonha em Portugal. Mas alguém podia ter metido uma cunha para o nosso guarda-redes ter sido operado a tempo.

A nossa desculpa é que os suecos também têm o mesmo problema lá na terrinha deles. Caso contrário o palerma do árbitro tinha visto a falta deste calmeirão que só serve para dar patadas na bola e no menino joãozinho de oiro. E nós, mesmo ceguetas, tínhamos ganho o jogo nas calmas.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

SEPARADOS À NASCENÇA

Konrad

Olegário
Estes dois andaram juntos na escolinha. A minha única consolação é saber que o de cá também vai ficar careca depressa.
Ontem fiquei tão nervoso que liguei ao meu médico, um reputado especialista da Faculdade de Medicina de Lisboa.

O senhor professor explicou-me que quando um senhor do apito mete palas é porque julga que os outros são burros. Mas burros são eles porque essa doença dá queda do cabelo e outros sintomas que é melhor não divulgar para já, para eles não perderem a surpresa.