sábado, 19 de abril de 2008

Força, Portugal!

Este senhor mais esticado e que canta com a boca mais aberta disse que as eleições na casinha dele têm de ser feitas como se faz uma gelatina de moranguinho, de que eu tenho tantas saudades. Quanto mais depressa melhor, que ele já está todo babado e eu também.

"Não podemos deixar que se arraste o tempo. Em Junho queremos estar todos a apoiar solidariamente a selecção nacional de futebol", disse ele de boca bem aberta e a mim não me espantou nada.

De facto, quem quer saber dele se o Ronaldo partir a loiça toda e o Quaresma fizer uma trivela na final? A selecção encontrou uma motivação para ganhar o campeonato superior a todas as outras. Pôr o senhor a cantar vitória durante quatro anos bem longe daqui. Mas não se esqueça de levar com ele o outro senhor, que também canta muito bem.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Deixem-me rir


Se me deixarem fazer dupla com este brazuca na final garanto que ele não volta a levar uma patada e a ficar meses magoado.

Gostei muito do nosso jogo, especialmente da nossa grande primeira parte. Como somos educados, não quisemos dar logo cabo de uma equipa desmoralizada. Os do bairro de Carnide têm a mania das grandezas e precisam sempre de moral elevada para se deixarem de fitas e jogar à bola. Demos dois de avanço e eles sentiram-se bem. Foi mais bonito assim.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Esta insatisfação, este Estado de ansiedade...



Este senhor, profissional da administração empresarial, declarou-se "totalmente insatisfeito" com a casinha que ajudou a construir.

Como eu só fico totalmente insatisfeito quando não há papinha pergunto, com o coração despedaçado, se será esse o problema dele.

domingo, 30 de março de 2008

Assim não tem graça


Como devem imaginar eu não dou grande valor ao dinheiro. Se acabassem com ele não morria. Já sei que me vão atirar ao focinho que como papinha de marca e que o meu mordomo paga mais de 50 moedas das vossas por cada saquinho. Mas eu até prefiro outras iguarias, abundantes no meu bairro. E sou perito em trocas. Sento-me à beira dos casalinhos na esplanada, faço olhinhos de carneirinho abandonado e lá vêm abundantes pedacinhos de tosta mista. Apanho os estrangeiros a gozar um almocinho, volto a fazer ar de carneirinho e provo de tudo. O Tio David da churrascaria e o Senhor Costa do café a mim também não me cobram nada. Ainda ontem jantei uns carapauzinhos que me souberam pela vida.

Essa coisa do dinheiro aborrece-me. Ainda me custa ver o mordomo sair de casa sem me levar com ele, com uma pastinha na mão e camisa lavada e sempre com a mesma conversinha para eu não ficar zangado e desatar a espalhar pedacinhos de jornal pela sala. Diz ele que vai trabalhar para poder comprar papinha para mim. Eu ainda lhe tento explicar que era melhor irmos para a praia, que passo bem sem as bolinhas de ração, mas ele não me ouve. Nunca me ignora tanto como nesses momentos em que fala de trabalho.

O que mais me irrita é que o mordomo costuma receber umas cartas das Finanças. Quando ele sai e me deixa sozinho ponho-me a ler aquilo. Descobri que as Finanças são um canil muito grande porque se fartam de sacar dinheiro ao mordomo para comprar papinha para os cães deles. Levam-lhe quase metade do ordenado e ainda ficam com um quinto das moedas que é preciso juntar para trocar por sacos de papinha e por quase todas as coisas que entram cá em casa.

Eu não concordo nada que metam o nariz nos meus biscoitos mas o meu mordomo, que é o mais prejudicado, costuma dizer que é necessário. Claro que às vezes apanha umas fúrias a ver televisão e a discutir esses assuntos com os amigos mas, no fundo, ele é um conformado. Tanto que me habituei a pensar que nas Finanças eles estão a criar umas lindas cadelinhas de pêlos loirinhos e muito simpáticas que não tarda me vão bater à porta para dividir o colchão.

Andava eu a preparar-me para estar à altura desse momento, a enrolar cobertores, quando reparei no Expresso caído no chão do quarto. No caderno de "Economia" eles contam que, afinal, as Finanças andam a esconder as moedas nas Bahamas, nas Bermudas, nas Antilhas holandesas e noutros sítios distantes a que chamam paraísos fiscais.

Fiquei furioso e comi logo um pacotinho de bolachas (adivinharam, estou de castigo mas é por uma causa justa). Eu julgava que eles investiam em cadelinhas portuguesas para eu não ter de me dar ao trabalho de sair do meu bairro
. Vou dizer ao meu mordomo que temos de comprar bilhetes de avião e começar a fazer essas viagens. Ele enterra lá o dinheirinho dele e eu aproveito para conhecer essas cadelinhas estrangeiras antes que elas percam o cio de tanto esperar por mim. Comigo darão sempre uns belos filhotes de raça.

domingo, 16 de março de 2008

O meu obrigado



O meu mordomo andou quinze dias perdido em Cuba. Fiquei irritado e até fiz greve.

Mas depois soube que a Manelita tinha tomado conta dele e fiquei contente.

Amanhã eu quero vê-la na televisão. E estou à espera de ir ao Algarve para lhe dar uma lambidela. Não é preciso biscoito.

sábado, 15 de março de 2008

Quero os meus biscoitos


Gostei de saber que o senhor que implicam com ele porque é engenheiro, pese embora tenha faltado à grande maratona dos professores, continua a correr todas as semanas, ainda que menos acompanhado.

Também achei graça ao bonequinho. Mas o que me partiu o coração foi vê-lo dizer que é muito generoso. Ainda bem que tenho o meu lindo focinho coberto de pêlos loirinhos porque corei de emoção e não quero que ninguém saiba das minhas fraquezas sentimentalistas.

Imagino que daqui até às eleições toda a gente o vá enterrar em pedidos escandalosamente caros. O meu é mais modesto. Faço-o já para não perder a vez. Quero um pacote de biscoitinhos de carne, que os meus acabaram ontem.

Como o mordomo pôs um autocolante na caixa do correio a rejeitar publicidade em casa sugiro que mos envie para a churrascaria do Tio David, ao Largo da Graça, Lisboa. Eu depois passo lá a levantá-los.

Não é preciso lacinho nem embrulho em papel fantasia. Agradeço é que os biscoitinhos venham hermeticamente fechados na embalagem de fábrica. Caso contrário zango-me e devolvo-os à procedência sem trincar nenhum, não vá aquele colaborador de bigodinho do senhor que é engenheiro confundir-me com um pitbull.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Os costas



Quando vi esta fotografia da maratona de Lisboa, a que só faltei eu e o senhor que estão sempre a implicar com ele por ser engenheiro, não vi logo que havia gato à mostra. Mas eu costumo visitar a lojinha do queijo limiano na internet porque cá em casa só tenho direito às cascas e estou sempre à espera que o senhor José, que escreve muito bem, publique lá meia bolinha, ou pelo menos uma fatia gordinha para me consolar como leitor assíduo.

Ele continua a preferir outros assuntos. Como é desconfiado por profissão deve ter medo que eu me console para sempre e deixe de ir à lojinha todos os dias. Desta vez conta o José que a senhora que aparece na fotografia com ar de quem quer comer a outra que é ministra é mulher do senhor Costa. Ainda julguei que fosse a legítima do senhor Costa da pastelaria do bairro, um doceiro de primeira água que me dá salgadinhos deliciosos sempre que lá vou. Estive quase a dar à senhora uma lambidela em sinal de reconhecimento. Afortunadamente, por instinto de desconfiança animal, guardei a língua a tempo de ler o textinho do José.

Não gosto de dar confiança a estranhos. E esta senhora que está a pedir que lhe metam a outra que é ministra bem no meio dos dentinhos afinal é só a mulher do outro Costa, aquele que se mudou da casinha do Governo para a casinha de Lisboa - que não é tão grande mas sempre tem mais futuro.

Nos dias que correm só não percebo o espanto do José. Não devemos viver no mesmo bairro.

domingo, 9 de março de 2008

A MARATONA DE LISBOA


Estou um bocado aborrecido porque o mordomo não me levou à manifestação. Eu estava doido por ver aquelas ruas todas sem carros e cheias de cheirinhos do Minho ao Algarve que os professores trouxeram para Lisboa. Ainda por cima, vi depois na televisão, montaram lá umas barraquinhas de salsichas no pão. Os idiotas chamam àquele petisco delicioso "cachorros quentes". Mas eu nem preciso da mostarda para engolir o pãozinho todo e fazer pepitas dessa piadola de mau gosto.

Perdi a oportunidade de manifestar o meu bom gosto mas não perdi pitada do que aconteceu porque ontem esqueci-me do Canal Panda, o meu preferido, e passei a tarde a ver notícias na televisão. Julguei que ia ver o senhor com quem estão sempre a embirrar por ser engenheiro mas ele não apareceu. Parece que resolveu mudar as regras da etiqueta. Em vez de receber as pessoas e de pagar a todas uma rodada de pãezinhos com salsichas mandou na véspera um amigo dele a Chaves. A mudança de regras tão antigas foi tão repentina que ninguém percebeu a gentileza vespertina do enviado especial.

Aquele senhor careca que tem óculos e espeta muito o dedo quando fala no Parlamento chegou a Chaves num carro muito bonito e foi mal recebido. As pessoas devem ter interpretado que ele não queria que fossem elas a disfrutar da viagem. Ficaram decepcionadas. Então, se até os polícias já tinham ido às escolas delas saber quem queria vir, deixando-as seguras de que a deslocação não tinha riscos, para quê antecipar a conversa? O senhor careca de óculos ficou de dedo espetado e até disse muitas coisas sobre liberdade mas não conseguiu quebrar a firme relação estabelecida entre as pessoas e a polícia.

De maneira que ontem foi um dia lindo. Nunca o senhor que implicam com ele por ser engenheiro tinha tido tanta gente junta por causa dele. A polícia, como sabe que ele gosta de correr em segurança pelas ruas, aproveitou e cortou o trânsito. Estava tudo bem preparado para a maior maratona de Lisboa, se descontarmos o facto de faltar eu. Mas o senhor que é engenheiro e desata a correr em todas as cidades que visita desta vez não quis participar. Não fora as salsichinhas ainda serem uma comidinha acessível e a grandiosa maratona de Lisboa tinha descambado numa fome colectiva. Tenho estado a pensar no que o terá levado a faltar a uma corridinha tão boa mas, como nele ninguém manda, não encontro explicação
.

terça-feira, 4 de março de 2008

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Boas maneiras



Ainda estou sem palavras.

Viram bem? Ele deu cabo da baliza dos nossos convidados por duas vezes e depois partiu a própria relva com uma golpada de karaté. Quando os pobres viram a ervinha toda aos gritos ficaram tão amedrontados que nem tentaram reagir.

Os senhores da televisão disseram que ficou magoado. São tontos, não percebem nada. O senhor tranquilo só o tirou porque se ele continuasse a partir tudo até ao fim iam dizer que não sabemos receber pessoas em casa. E nós temos boas maneiras.

A próxima vez que apanhar um pitbull no meu bairro ele vai ver.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

A aguinha não se nega a ninguém



Hoje passei uma tarde consolada. Fui à praia, conheci uma cadelinha branca de olhos azuis e pêlo curto, tomei três banhinhos de mar.

Só no "Público" continuei a encontrar motivos para me indignar. Apesar da minha sábia sugestão o jornal ainda não traz biscoitos como brinde. E na edição de hoje o senhor da esquerda voltava a meter-se com o senhor de barbas. "Espero que, com rapidez, a Câmara Municipal de Lisboa deixe de pagar a água que continua a fornecer gratuitamente para a actividade deste restaurante de luxo", escreveu o senhor da esquerda, mesmo à procura de pôr as barbas do outro de molho.

E então, qual é o problema dele? Eu sempre que vou a restaurantes dão-me aguinha fresca para beber e não cobram nada ao mordomo por isso. Ainda hoje bebi três tacinhas de água numa tigelinha de gelado que o senhor da esplanada da praia do Baleal trouxe de propósito para mim. Se houvesse alguma coisa a reclamar era contra o facto de a tigelinha vir bem lavadinha, sem restinhos de gelado para lamber.

Já disse ao mordomo que quero ir jantar ao "Eleven". Aposto que também me oferecem a aguinha, nem que seja num pratinho de porcelana ou numa tigelinha de prata, porque o restaurante é, de facto, refinado.

A minha dieta

Todos os dias jogo ao gato e ao rato com o mordomo por causa da minha dieta. Eu faço de rato, claro. Nasci com queda para o teatro e Deus proibiu-me de ir a Hollywood para não estragar os planos Dele para o Jack Nicholson, o Robert De Niro e esses senhores todos, mas fazer de gato estaria acima das minhas possibilidades naturais.

Fazer de rato, no meu caso, é correr como um cão. Mal tenho ordem para atravessar as passadeiras do meu bairro desato a correr até à pastelaria do senhor Costa e à churrascaria do tio David. Sei muito bem que se não ganhar uma boa vantagem ao meu mordomo lá se vão os salgadinhos e os pedacinhos de picanha. A sorte é que chego sempre primeiro (só deixo o mordomo ganhar na corrida à havaneza dos jornais para ele não desmoralizar).

Por vontade do mordomo eu não comia nada na rua para ele controlar a minha dieta bolinha a bolinha. Sim, porque em casa a minha ração são sempre bolinhas de marca ou um arrozinho cozido sem sal que a menina faz quando um saco de bolinhas acaba antes de eles terem comprado outro. A minha dieta só varia das bolinhas de frango para as bolinhas de carneiro, que são melhores para o meu pêlo, e pouco mais.

Ao ver o anúncio ao Danacol na televisão percebi que o mordomo se preocupa com o meu colesterol. O colesterol deve ser uma coisa tão perniciosa para aí como a diabetes, porque é por causa da maldita que o meu mordomo proibiu o senhor Costa de me dar um docinho de vez em quando.

O filme publicitário encheu-me de esperanças na melhoria da minha dieta. Um palerma que passa a vida a dizer que tem colesterol alto atravessa a passadeira sem autorização e é quase atropelado. Mesmo assim, o outro diz-lhe que é mais perigoso ele ter colesterol do que ser feito em quatro pelo carro. No fim, acabam os dois felizes a matar o colesterol tomando um danacolzinho cada um.

Eu desatei a ladrar e atirei-me ao frigorífico porque há lá uns remédios parecidos. Foi aí que o meu mordomo me parou. Diz ele que o Danacol é um iogurtinho, não é um remédio. Apanhei um desgosto quando me avisou que nem que eu coma uma dúzia deles todos os dias me irá deixar abusar da picanha e dos salgadinhos.

Tivemos uma discussão prolongada. O meu mordomo argumentou com os excessos da publicidade, gritou-me que o Infarmed não é como a ASAE e voltou a gritar que não se chateia a Danone como quem fecha um restaurante de bairro. Os argumentos pareceram-me injustos. Mas ele arrumou comigo quando disse que o próprio anúncio avisa que em caso de colesterol é preciso ir ao médico e que o Danacol não é um medicamento.

Costumo acreditar no mordomo, mas desta feita os meus interesses obrigam-me a ficar na dúvida. O tal aviso aparece em letras tão pequeninas que eu não consigo ler nada. A visão é o único sentido em que um cão sai a perder com a Humanidade. O palerma e o outro senhor não se importariam de ler as letras pequeninas em voz alta enquanto tomam o iogurtinho?